Março - 2019

São José e a Quaresma

A Campanha da Fraternidade 2019, celebrada durante a Quaresma, tem como tema “Fraternidade e políticas públicas”. São José, um dos poucos santos celebrados duas vezes ao longo do ano, tem sua festa maior no dia 19 de março, na qual é proclamado Patrono Universal da Igreja. O que há em comum entre estas três realidades: São José, Quaresma e Campanha da Fraternidade?

Vamos olhar para José, descendente de Davi. Alguns afirmam que o Novo Testamento fala pouco dele. Será? Se olharmos a quantidade de palavras, fala-se pouco, mas se examinarmos a densidade das palavras e sua profundidade, o Novo Testamento diz tudo acerca de José.

Mateus é quem mais se ocupa com o pai adotivo de Jesus, que vive verdadeiro drama existencial: Maria, sua noiva, está grávida, e ele tem certeza de que o bebê não é filho dele.

Muitos – também nós? – diante disso, botaria a boca no trombone, denunciaria o adultério da noiva, e ela seria apedrejada. Tudo segundo a Lei. José tem uma saída diferente: separa-se em silêncio, de sorte que quem vê as coisas de fora põe nele a culpa, acusa-o de abandono do lar etc. Em vez de prejudicar Maria, carrega a responsabilidade pelo ato.

Mateus chama José de “justo”, e nós acabamos de ver o que para ele significa ser justo, o que é justiça. Com essa qualificação, Mateus põe José lado a lado com os dois personagens mais importantes do Antigo Testamento: Davi, passado à história como o rei justo; Abraão, que acreditou em Deus e por isso foi considerado justo. Bastava isso. Bastava empunhar bandeira semelhante a essa para que se afirme a seriedade com a qual uma pessoa vive o tempo da Quaresma.

José se caracteriza como trabalhador, e em outras festividades litúrgicas nas quais comparece (por exemplo a solenidade da Sagrada Família), é um retirante que foge da perseguição do rei, indo morar – em qual casa? – no estrangeiro.

Trabalho e moradia, duas metas de políticas públicas que não podem ser esquecidas ou abandonadas. Deus nos ajude a vivermos como São José, com trabalho e moradia.

Pe. José Bortolini


Dezembro - 2018

Espiritualidade do Ciclo do Natal

Dá-se o nome de Ciclo do Natal ao período litúrgico que vai do 1º domingo do Advento à festa do Batismo do Senhor. Esse ciclo compreende dois tempos, Advento e Natal. Tomados juntos, formando unidade, esses dois tempos se tornam mais interessantes do que tomá-los isoladamente.

Os quatro domingos que antecedem o Natal compõem o Tempo do Advento (palavra que significa “vinda”, “chegada”). Neles comemoramos duas realidades do nosso itinerário de fé, fundadas na memória e na expectativa. Na memória celebramos o evento histórico do nascimento de Jesus, nosso Salvador. Nessa vertente, o Advento deságua no Natal. Porém, na perspectiva de memória de algo passado, à medida que avançamos na história nos afastamos sempre mais do evento histórico. Por isso, a memória deve ser ativa, ou seja, estimular-nos a reviver o nascimento do Senhor como algo que acontece no presente.

Como expectativa, somos levados a vivenciar a segunda vinda do Senhor Jesus no fim dos tempos, na esperança que nos faz erguer a cabeça, pois está próxima a nossa libertação. Nesse sentido, à medida que caminhamos, estamos nos aproximando sempre mais do retorno do Senhor no final dos tempos. E para que essa aproximação não nos encha de medo, vamos praticar o bem, a solidariedade e difundir a paz.

Memória e expectativa são duas colunas que sustentam a espiritualidade do Ciclo do Natal. Elas nos sugerem muitas coisas em torno do eixo que se chama vida. Bela, porém frágil, ainda mais fragilizada pela ausência da sensibilidade que nos torna solidários com ela.

A vida é frágil no Natal. Uma família em viagem, um bebê que nasce fora de casa, “pois não havia lugar para eles na sala”. Vida frágil na vertente da

expectativa, e mais ainda fragilizada pela indiferença das pessoas e pelas inúmeras situações de pobreza, carência de recursos.

Neste ano, nossa Paróquia tomou uma iniciativa que faz ver espiritualidade e solidariedade andando juntas e se fundindo. Trata-se de ajudar o Amparo Maternal da capital, verdadeiro lar para as gestantes que não querem ou não têm condições de enfrentar gestação e parto. Ajudando com toda espécie de socorro: dinheiro, alimentos não perecíveis, materiais de higiene, estaremos praticando a autêntica espiritualidade do Ciclo do Natal.

Como diz a canção: “Então é Natal, o que a gente fez? / O ano termina, e começa outra vez / Então é Natal, a festa Cristã / Do velho e do novo, o amor como um todo /Então bom Natal, e um ano novo também /Que seja feliz quem, souber o que é o bem”.

Pe. José Bortolini


Outubro - 2018

Um mês para viver intensamente

Outubro chegou. E traz consigo abundante quantidade de temas e sugestões para vivermos e reforçarmos nossa espiritualidade. Ele se abre com a festa de Santa Teresinha, que tão jovem amadureceu para a vida eterna, sendo mais tarde indicada como patrona das missões, ela que viveu atrás dos muros de um mosteiro, mas cujo coração não tinha fronteiras, melhor dizendo, “suas fronteiras era o amor”.

O despertar que este mês provoca em nós se detém na festa dos Anjos Custódios, celebrada no dia 2 de outubro. É verdade, o Anjo da Guarda anda um tanto esquecido, mas o esquecimento deve ser atribuído a nós e não à misericórdia de Deus, representada pelo Anjo da Guarda. Ele é a mão protetora de Deus a nos acompanhar pelas estradas da vida.

No dia 3, eis que somos conduzidos às terras potiguares onde deram a vida pela Eucaristia os bem-aventurados padres André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, junto com seus companheiros, todos mártires. Ocasião para refletirmos sobre as consequências de quem vive a fundo o mistério da Eucaristia.

E no dia seguinte? Nada mais nada menos que um dos santos mais simpáticos e populares: Francisco de Assis. Bem entendido, ele nos desperta para o grande problema da ecologia. Admiração e louvor por um lado, por outro, compromisso que preserva o maio ambiente e respeita os animais.

Caminhando mais um pouco. Dia 7: Nossa Senhora do Rosário, devoção popular que santificou a vida de tantas pessoas e suas famílias. Lembro-me da minha infância, a reza do terço todas as noites antes do jantar, de joelhos, em latim...

... da grande festa da Mãe e Padroeira de nosso País, que tanta paz de espírito, força e esperança suscita no coração de milhões de brasileiros. Para ela, com certeza, todos nós somos suas crianças prediletas.

Lá adiante, depois de passarmos por São Calixto, no dia 15 espera-nos outra Teresa, a Teresa de Jesus, doutora da Igreja, que nem nos deixa respirar, pois é vizinha de Edviges,

amiga e protetora nos momentos de dúvidas e dívidas... Ela reparte a festa desse dia com Margarida Maria Alacoque, apaixonada pelo Sagrado Coração de Jesus.

Mal passamos da metade do mês, eis Santo Inácio de Antioquia (17), corajoso mártir, que nos revela: Amanhã é dia de São Lucas, evangelista. No seu Evangelho nos mostra o rosto ecumênico de Jesus, preparando-nos para, no domingo, celebrarmos o Dia Mundial das Missões, para o qual convergem todos os corações e o olhar esperançoso de quem acredita no sonho de um só rebanho e um só Pastor.

Não bastassem todos esses santos e santas, esperam-nos São João Paulo II (22), São João de Capistrano (23), Santo Antônio Maria Claret (24), São Simão e São Judas (28). Como se vê, não nos faltam santos, falta-nos sermos como eles, talvez, falta-nos ser mais santos.

Pe. José Bortolini


Agosto - 2018

Santa Suzana, nossa padroeira

Ter Santa Suzana como padroeira, gostar dela, invocá-la e procurar seguir seus passos é de certa forma como caminhar na contramão do trânsito humano. Pensemos nessa forte menina, virgem e mártir, ou se quisermos, mártir por causa da sua escolha de viver a virgindade.

Cada vez mais precocemente os adolescentes se entregam entregando o próprio corpo. E as insinuações são cada vez mais fortes e envolventes, de modo que seguir a Jesus, realizando no próprio corpo aquilo que nos leva à santidade e à salvação se torna cada vez mais difícil e perigoso. É de fato como andar na contramão da história. E todos sabemos que ninguém chega à santidade sem o próprio corpo.

Outra coisa que pode chamar nossa atenção é o

respeito que Deus nutre por nossas escolhas boas. Suzana podia casar, tornar-se imperatriz e viver santamente o matrimônio e o exercício do poder que o cargo lhe conferia, mas escolheu seguir a Jesus buscando a santidade num corpo virgem. E, reconheçamos, isso não era e não é fácil. Mas Deus respeitou a opção que ela fez, porque era uma escolha que se espelhava em Jesus, casto, puro e virgem. E assim ela alcançou o prêmio dos vencedores, vencendo a morte e conquistando a vida eterna.

Papa Francisco nos abriu os olhos para vermos que há milhões de cristãos sendo martirizados hoje. E sem sombra de dúvida, o martírio não é coisa que se deva buscar afoitamente, nem de modo algum. A nossa

bandeira deve ser a da liberdade em escolher o modo de ser cristão e de agradar a Deus. Onde há mártires não há liberdade, não há justiça.

E o que Suzana diria aos jovens que se perdem nas baladas da noite? Talvez mostraria que valeu a pena arriscar a vida para manter sua integridade; que o doce de hoje pode ser o amargo de amanhã; que não se colhe aquilo que não foi plantado; que valeu a pena alvejar as próprias vestes no sangue do Cordeiro, como afirma o Apocalipse. E continuemos a pedir-lhe: Santa Suzana, virgem e mártir, olhai nossa juventude e intercedei por ela ao Senhor!

Pe. José Bortolini


Agosto - 2018

Mês Vocacional

Ao longo do ano, nosso calendário litúrgico nos convida a celebrar meses temáticos. Chamam-se assim os meses nos quais um tema ocupa continuamente nossa atenção. Por exemplo, outubro = mês missionário; setembro = mês da Bíblia; agosto = mês vocacional, porque no início celebrava-se a vocação sacerdotal, motivada pela memória litúrgica de São João Maria Vianney, padroeiro dos sacerdotes.

Com o tempo, o Espírito Santo nos abriu os olhos para ver melhor a realidade vocacional, ou seja, que há inúmeras vocações e que todo ser que vem a este mundo recebe de Deus uma vocação ou chamado. Por isso, agosto é mês vocacional porque deseja a cada semana celebrar um tipo de chamado: à vocação sacerdotal, à vocação matrimonial, à vocação consagrada na vida religiosa e à vocação leiga.

Embora às vezes seja difícil encaixar esses temas na homilia e outros momentos, é oportuno levar a sério a questão vocacional, pois todos são contemplados por Deus com uma espécie de vocação. Ninguém vem a este mundo para ver a banda passar e não fazer coisa alguma para tornar-se melhor e ajudar a humanidade a crescer. E mais: toda vocação dada por Deus, na diversidade de dons, é caminho de santidade e caminho para alcançarmos a salvação.

Além disso, é importante considerar que a vocação recebida é prova de que Deus nos ama e faz questão de contar conosco em tudo aquilo que faz parte da nossa vocação específica. De modo que em cada vocação acontece aquilo que alguém dizia: “Aquele que te criou sem ti não te salvará sem ti”.

CUma forma de agradecer a Deus o dom da vocação é esta: viver alegre e agradecidamente a própria vocação, pois Deus – que tudo conhece – deu-nos o melhor modo e o mais adequado caminho para imitar algo de Jesus, realizando assim a nossa vocação: alegres por ser padres, alegres e gratos por ser pais, alegres e gratos por ser consagrados etc... Como é triste ver uma pessoa vocacionalmente triste. E como faz bem encontrar alguém que vive com alegria e gratidão o dom da vocação que Deus lhe deu.

Pe. José Bortolini


Junho - 2018

Copa do Mundo e espiritualidade

Durante um mês, nesta pátria de chuteiras, a maioria dos brasileiros estará respirando futebol, torcendo, sofrendo e – esperamos – comemorando e vibrando. E você, que se interessou pelo título deste texto, poderá perguntar se seu autor não pirou de vez, estimulando de certa forma a alienação, inimiga da espiritualidade.

Escolhi esse tema não só por ser atual, mas sobretudo para que percebamos ser possível cultivar a espiritualidade a partir do cotidiano, daquilo que acontece sob nossos olhos.

É possível associar Copa do Mundo (esporte, atletismo etc.) com espiritualidade. Quem nos ensina isso é o apóstolo Paulo, nascido e educado na cidade de Tarso, na Cilícia, grande metrópole que o viu nascer e crescer.

A grande cidade de certo modo ensinou a Paulo como viver a espiritualidade a partir dos acontecimentos da metrópole.

Paulo é homem das grandes cidades. Jesus e os apóstolos eram pessoas das aldeias, e as imagens que Jesus usava, sobretudo nas parábolas, eram tiradas da vida no campo e nas vilas.

Em suas cartas, Paulo emprega imagens da grande cidade para estimular o crescimento espiritual dele e das suas comunidades. É assim, por exemplo, que na carta aos Filipenses ele fala do atleta que corre sem parar para alcançar a meta e o prêmio. O mesmo tema, associado a outros, se encontra no final da segunda carta a Timóteo.

Certamente Paulo viu na sua querida Tarso as disputas do pugilismo, e disso se aproveitou para falar da constância e perseverança, treinamento que comporta disciplina e abstenção. Pois bem, ele usa abundantemente essas imagens para falar da vida espiritual do cristão.

Lanço um desafio para você: tomar uma das cartas de Paulo (por exemplo Filipenses) e ir anotando as passagens em que o texto bíblico está construído sobre uma metáfora ou imagem do desporto daquele tempo. E você terá a oportunidade de ver que espiritualidade e Copa do Mundo não são realidades estranhas uma à outra. E perceberá outra coisa: Deus nos fala de si e de nós com a linguagem do dia a dia. Tente, e se surpreenderá.

Pe. José Bortolini


Abril - 2018

Que tal viver continuamente a espiritualidade pascal?

O Evangelho segundo São João está repleto de surpresas que somente com o tempo a ele dedicado é que descobrimos. Uma dessas surpresas se refere ao dia da ressurreição e sua repercussão na vida das pessoas e na história.

Jesus ressuscitou no domingo. É o novo sol, que inaugura um dia sem fim, realizando aquilo que se lê logo no início do Evangelho, ou seja, o inútil esforço das trevas a fim de apagar a luz. Não conseguem. E nós cantamos: “A luz resplandeceu em plena escuridão. Jamais irão as trevas vencer o seu clarão”.

O Evangelho segundo São João desenvolve abundantemente o tema da vitória da luz sobre as trevas, mas é no final que a ideia é reforçada vigorosamente. A partir do capítulo 20 narra-se a ressurreição de Jesus, o novo Sol, que vence definitivamente toda espécie de trevas.

Lendo com atenção esse capítulo, nota-se que os acontecimentos aí narrados se dão sempre de domingo: a ressurreição do Senhor, a efusão do Espírito Santo no entardecer desse mesmo dia, o episódio de Tomé, oito dias depois, ou seja, novamente em dia de domingo etc. A ideia de João é muito clara: A vitória de Jesus abre um novo dia de luz que as trevas não conseguem apagar.

Isso nos remete imediatamente à espiritualidade que o tempo pascal espera ser vivida, uma espiritualidade de vitoriosos, que não se deixam abater por nada nem por ninguém. A Liturgia detectou essa orientação e nos ensina que todo domingo, em cada celebração da Eucaristia revivemos a vitória da vida sobre a morte, ou seja, cada domingo é Páscoa. Mas o Evangelho segundo São João quer que sintamos e vivamos mais e mais,

chegando a nos sugerir que em cada amanhecer, quando acordamos para as tarefas cotidianas, digamos a nós mesmos: “Quero viver este dia com a consciência pascal. Hoje, como ontem, como amanhã, é Páscoa em minha vida, e tudo o que penso e faço precisa refletir a luz da Páscoa de Cristo”.

Portanto, seja qual for o dia do ano, eu e você estamos vivendo e revivendo a Páscoa do Senhor. Aqueles que se arrastam pela vida e fazem dela uma ladainha de lamentações desconhecem a força da espiritualidade pascal. Mesmo quando chegar o dia de nossa partida deste mundo, queiramos estar celebrando a Páscoa. E dizer, como disse uma santa, “não morro, entro na vida”.

Pe. José Bortolini


Fevereiro - 2018

Quaresma e Campanha da Fraternidade

Elementos para a espiritualidade.

De modo geral, o cristão não avança em sua caminhada sem ser alimentado por uma espiritualidade, seja ela qual for. É como o combustível num carro: faltando, ficamos parados.

Ao longo do Ano Litúrgico encontramos tempos fortes - como o Advento e a Quaresma, por exemplo - que são como o posto de combustível no qual nos abastecemos para a viagem.

Não bastasse isso, há várias décadas - mais de meio século - em nosso País o tempo forte da Quaresma (com seus grandes temas e gestos que desaguam na Páscoa) vem acompanhado por um aditivo conhecido como Campanha da Fraternidade.

O objetivo da Campanha da Fraternidade é iluminar os gestos fundamentais desse tempo litúrgico: a oração, o jejum, a esmola.

Neste ano, a Campanha da Fraternidade traz profundos desafios, sintetizados no seu tema e no lema. O tema é este: "Fraternidade e superação da violência", e o lema é tirado de Mateus 23,8: "Em Cristo somos todos irmãos". Tema e lema atualíssimos, se levarmos em conta que o País vive praticamente uma guerra civil camuflada. Mas as mortes oriundas das drogas, da corrupção, do trânsito, do preconceito etc. estão aí. Porém, não é só a violência brutal que mata. A violência se aninha e prospera na indiferença, no preconceito e em tudo o que não nos aproxima como irmãos e irmãs.

A Quaresma é caminho que desemboca na Páscoa. Mas não podemos esquecer que Jesus foi vítima do pior preconceito e da mais cruel violência, feita de palavras e de gestos. Caminhar com ele e do jeito dele neste tempo favorável requer lucidez e coragem. Hipocritamente, comovemo-nos diante de um bichinho (nosso País soma 55 milhões de cães de estimação) talvez para camuflar nossa violência verbal e de comportamento, igualmente mortal.

Nesta Quaresma, iluminados pela Campanha da Fraternidade, caminhemos para a Páscoa da vitória da vida contra todas as suas ameaças.

Pe. José Bortolini


Fevereiro/Março - 2017

Quaresma: tempo de reencontro

Dizem os peritos em Liturgia que não é bom considerar a Quaresma como tempo isolado, pois isso diminui seu sentido. É melhor considerá-la como parte de um ciclo, o Ciclo da Páscoa, que compreende Quaresma, Páscoa e Pentecostes. E isso é interessante do ponto de vista da nossa caminhada de fé. Quaresma sem Páscoa não faz sentido; Páscoa sem Pentecostes acaba incompleta e empobrecida.

O que são, portanto, esses 40 dias que dão nome a esse tempo? São início de caminhada que culmina na Páscoa e recebe a coroa no Pentecostes. São como os 40 dias de deserto na vida de Jesus: dias de profundo encontro consigo mesmo, com Deus no mistério pascal e encontro com o Espírito que anima e sustenta a caminhada da Igreja.

Quaresma é tempo de encontro consigo mesmo, com a realidade que somos. E seu início nos garante que somos pó. No deserto de sua Quaresma, Jesus venceu a tentação de pensar somente em si, nos próprios interesses (tentação de transformar as pedras em pão); superou a tentação de pôr Deus a serviço de seus caprichos (tentação de atirar-se do ponto mais alto do Templo de Jerusalém); venceu a tentação de tudo possuir, ser dono do mundo, mesmo que para tanto devesse ajoelhar-se em adoração a Satanás.

Quaresma, portanto, é tempo de reencontrar-nos conosco mesmos naquilo ao qual somos chamados e para o qual fomos feitos, à semelhança de Jesus vencedor das tentações.

Além disso, na Quaresma os católicos do Brasil refletem sobre o tema da Campanha da Fraternidade a fim de agir em sintonia com o projeto de Deus. Neste ano, em continuidade com o ano passado, nos são propostas reflexões sobre os biomas que compõem nosso País. Destruí-los é destruir-nos; preservá-los é conservar e proteger nossa casa comum. Bioma é um território – por exemplo a Amazônia, o Cerrado etc. – caracterizado por vegetação, clima, fauna, flora e população iguais. Que tal conhecer mais essas realidades que formam nossa casa comum? Não seria também isso um reencontrar-se?

Pe. José Bortolini


Novembro/Dezembro - 2016

Acolhida: espiritualidade de Natal

O Evangelho de João (1,11) afirma que Jesus “veio para o que era seu e os seus não o receberam”. Ou seja, Jesus foi rejeitado justamente por aqueles que eram parte do grupo mais próximo a ele: parentes e membros da mesma raça. Evidentemente, o Evangelho de João está se referindo à rejeição do Jesus adulto, pois nada menciona a respeito da infância. Isso é explicitado ao longo desse Evangelho.

Porém, Lucas fala da rejeição de Jesus antes mesmo de nascer. Ele associa seu nascimento a um recenseamento de todo o Império Romano, fato que força José a ir a Belém, sua terra natal, para recensear-se juntamente com sua esposa, Maria, prestes a dar à luz. Lucas narra: “Enquanto lá estavam, completaram-se os dias para o parto, e ela deu à luz seu filho primogênito, envolveu-o com faixas e reclinou-o numa manjedoura, porque não havia um lugar para eles na sala” (2,6).

Uma nota na Bíblia de Jerusalém explica que a palavra grega traduzida por “sala” dá a entender que se tratava não de um albergue, mas de casa pertencente aos parentes de José, que era natural de Belém. Eles, então, tiveram de abrigar-se no “puxadinho” do lado de fora da casa dos parentes de José, lugar reservado aos animais.

E assim se completa a rejeição da qual fala o Evangelho de João. De sorte que o oposto de rejeição, ou seja, o acolhimento, se torna a atitude fundamental para a espiritualidade do Natal.

Natal cristão, portanto, é acolhimento. Nós dizemos que onde come um comem dois; há sempre um cantinho para mais alguém que chegou de repente. Mas se o coração das pessoas é apertado ou fechado, a acolhida não acontece.

A acolhida começa dentro da gente, e a rejeição também. Aquilo que vivemos por dentro se manifesta em atos por fora. Custava para os parentes de José “aconchegar-se” um pouco mais para acolher o casal que chegou de repente? Certamente dentro da sala cada um zelava pelo próprio espaço, e assim zelando acabam perdendo a grande oportunidade de acolher o Salvador.

Façamos da celebração deste grande evento, um momento de, em família, ao redor do presépio, cantarmos com alegria jubilosa e renovarmos nossa confiança nas promessas que nosso Salvador veio trazer-nos...

Recordo o tempo de criança, quando pernoitavam visitas em casa: nós, crianças, íamos dormir na sala, cedendo a cama para as visitas. E sem reclamar; pelo contrário, fazendo festa e também bagunça. Era acolhida festiva. Era espiritualidade de Natal.

Pe. José Bortolini