Outubro - 2018

Um mês para viver intensamente

Outubro chegou. E traz consigo abundante quantidade de temas e sugestões para vivermos e reforçarmos nossa espiritualidade. Ele se abre com a festa de Santa Teresinha, que tão jovem amadureceu para a vida eterna, sendo mais tarde indicada como patrona das missões, ela que viveu atrás dos muros de um mosteiro, mas cujo coração não tinha fronteiras, melhor dizendo, “suas fronteiras era o amor”.

O despertar que este mês provoca em nós se detém na festa dos Anjos Custódios, celebrada no dia 2 de outubro. É verdade, o Anjo da Guarda anda um tanto esquecido, mas o esquecimento deve ser atribuído a nós e não à misericórdia de Deus, representada pelo Anjo da Guarda. Ele é a mão protetora de Deus a nos acompanhar pelas estradas da vida.

No dia 3, eis que somos conduzidos às terras potiguares onde deram a vida pela Eucaristia os bem-aventurados padres André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, junto com seus companheiros, todos mártires. Ocasião para refletirmos sobre as consequências de quem vive a fundo o mistério da Eucaristia.

E no dia seguinte? Nada mais nada menos que um dos santos mais simpáticos e populares: Francisco de Assis. Bem entendido, ele nos desperta para o grande problema da ecologia. Admiração e louvor por um lado, por outro, compromisso que preserva o maio ambiente e respeita os animais.

Caminhando mais um pouco. Dia 7: Nossa Senhora do Rosário, devoção popular que santificou a vida de tantas pessoas e suas famílias. Lembro-me da minha infância, a reza do terço todas as noites antes do jantar, de joelhos, em latim...

... da grande festa da Mãe e Padroeira de nosso País, que tanta paz de espírito, força e esperança suscita no coração de milhões de brasileiros. Para ela, com certeza, todos nós somos suas crianças prediletas.

Lá adiante, depois de passarmos por São Calixto, no dia 15 espera-nos outra Teresa, a Teresa de Jesus, doutora da Igreja, que nem nos deixa respirar, pois é vizinha de Edviges,

amiga e protetora nos momentos de dúvidas e dívidas... Ela reparte a festa desse dia com Margarida Maria Alacoque, apaixonada pelo Sagrado Coração de Jesus.

Mal passamos da metade do mês, eis Santo Inácio de Antioquia (17), corajoso mártir, que nos revela: Amanhã é dia de São Lucas, evangelista. No seu Evangelho nos mostra o rosto ecumênico de Jesus, preparando-nos para, no domingo, celebrarmos o Dia Mundial das Missões, para o qual convergem todos os corações e o olhar esperançoso de quem acredita no sonho de um só rebanho e um só Pastor.

Não bastassem todos esses santos e santas, esperam-nos São João Paulo II (22), São João de Capistrano (23), Santo Antônio Maria Claret (24), São Simão e São Judas (28). Como se vê, não nos faltam santos, falta-nos sermos como eles, talvez, falta-nos ser mais santos.

Pe. José Bortolini


Agosto - 2018

Santa Suzana, nossa padroeira

Ter Santa Suzana como padroeira, gostar dela, invocá-la e procurar seguir seus passos é de certa forma como caminhar na contramão do trânsito humano. Pensemos nessa forte menina, virgem e mártir, ou se quisermos, mártir por causa da sua escolha de viver a virgindade.

Cada vez mais precocemente os adolescentes se entregam entregando o próprio corpo. E as insinuações são cada vez mais fortes e envolventes, de modo que seguir a Jesus, realizando no próprio corpo aquilo que nos leva à santidade e à salvação se torna cada vez mais difícil e perigoso. É de fato como andar na contramão da história. E todos sabemos que ninguém chega à santidade sem o próprio corpo.

Outra coisa que pode chamar nossa atenção é o

respeito que Deus nutre por nossas escolhas boas. Suzana podia casar, tornar-se imperatriz e viver santamente o matrimônio e o exercício do poder que o cargo lhe conferia, mas escolheu seguir a Jesus buscando a santidade num corpo virgem. E, reconheçamos, isso não era e não é fácil. Mas Deus respeitou a opção que ela fez, porque era uma escolha que se espelhava em Jesus, casto, puro e virgem. E assim ela alcançou o prêmio dos vencedores, vencendo a morte e conquistando a vida eterna.

Papa Francisco nos abriu os olhos para vermos que há milhões de cristãos sendo martirizados hoje. E sem sombra de dúvida, o martírio não é coisa que se deva buscar afoitamente, nem de modo algum. A nossa

bandeira deve ser a da liberdade em escolher o modo de ser cristão e de agradar a Deus. Onde há mártires não há liberdade, não há justiça.

E o que Suzana diria aos jovens que se perdem nas baladas da noite? Talvez mostraria que valeu a pena arriscar a vida para manter sua integridade; que o doce de hoje pode ser o amargo de amanhã; que não se colhe aquilo que não foi plantado; que valeu a pena alvejar as próprias vestes no sangue do Cordeiro, como afirma o Apocalipse. E continuemos a pedir-lhe: Santa Suzana, virgem e mártir, olhai nossa juventude e intercedei por ela ao Senhor!

Pe. José Bortolini


Agosto - 2018

Mês Vocacional

Ao longo do ano, nosso calendário litúrgico nos convida a celebrar meses temáticos. Chamam-se assim os meses nos quais um tema ocupa continuamente nossa atenção. Por exemplo, outubro = mês missionário; setembro = mês da Bíblia; agosto = mês vocacional, porque no início celebrava-se a vocação sacerdotal, motivada pela memória litúrgica de São João Maria Vianney, padroeiro dos sacerdotes.

Com o tempo, o Espírito Santo nos abriu os olhos para ver melhor a realidade vocacional, ou seja, que há inúmeras vocações e que todo ser que vem a este mundo recebe de Deus uma vocação ou chamado. Por isso, agosto é mês vocacional porque deseja a cada semana celebrar um tipo de chamado: à vocação sacerdotal, à vocação matrimonial, à vocação consagrada na vida religiosa e à vocação leiga.

Embora às vezes seja difícil encaixar esses temas na homilia e outros momentos, é oportuno levar a sério a questão vocacional, pois todos são contemplados por Deus com uma espécie de vocação. Ninguém vem a este mundo para ver a banda passar e não fazer coisa alguma para tornar-se melhor e ajudar a humanidade a crescer. E mais: toda vocação dada por Deus, na diversidade de dons, é caminho de santidade e caminho para alcançarmos a salvação.

Além disso, é importante considerar que a vocação recebida é prova de que Deus nos ama e faz questão de contar conosco em tudo aquilo que faz parte da nossa vocação específica. De modo que em cada vocação acontece aquilo que alguém dizia: “Aquele que te criou sem ti não te salvará sem ti”.

CUma forma de agradecer a Deus o dom da vocação é esta: viver alegre e agradecidamente a própria vocação, pois Deus – que tudo conhece – deu-nos o melhor modo e o mais adequado caminho para imitar algo de Jesus, realizando assim a nossa vocação: alegres por ser padres, alegres e gratos por ser pais, alegres e gratos por ser consagrados etc... Como é triste ver uma pessoa vocacionalmente triste. E como faz bem encontrar alguém que vive com alegria e gratidão o dom da vocação que Deus lhe deu.

Pe. José Bortolini


Junho - 2018

Copa do Mundo e espiritualidade

Durante um mês, nesta pátria de chuteiras, a maioria dos brasileiros estará respirando futebol, torcendo, sofrendo e – esperamos – comemorando e vibrando. E você, que se interessou pelo título deste texto, poderá perguntar se seu autor não pirou de vez, estimulando de certa forma a alienação, inimiga da espiritualidade.

Escolhi esse tema não só por ser atual, mas sobretudo para que percebamos ser possível cultivar a espiritualidade a partir do cotidiano, daquilo que acontece sob nossos olhos.

É possível associar Copa do Mundo (esporte, atletismo etc.) com espiritualidade. Quem nos ensina isso é o apóstolo Paulo, nascido e educado na cidade de Tarso, na Cilícia, grande metrópole que o viu nascer e crescer.

A grande cidade de certo modo ensinou a Paulo como viver a espiritualidade a partir dos acontecimentos da metrópole.

Paulo é homem das grandes cidades. Jesus e os apóstolos eram pessoas das aldeias, e as imagens que Jesus usava, sobretudo nas parábolas, eram tiradas da vida no campo e nas vilas.

Em suas cartas, Paulo emprega imagens da grande cidade para estimular o crescimento espiritual dele e das suas comunidades. É assim, por exemplo, que na carta aos Filipenses ele fala do atleta que corre sem parar para alcançar a meta e o prêmio. O mesmo tema, associado a outros, se encontra no final da segunda carta a Timóteo.

Certamente Paulo viu na sua querida Tarso as disputas do pugilismo, e disso se aproveitou para falar da constância e perseverança, treinamento que comporta disciplina e abstenção. Pois bem, ele usa abundantemente essas imagens para falar da vida espiritual do cristão.

Lanço um desafio para você: tomar uma das cartas de Paulo (por exemplo Filipenses) e ir anotando as passagens em que o texto bíblico está construído sobre uma metáfora ou imagem do desporto daquele tempo. E você terá a oportunidade de ver que espiritualidade e Copa do Mundo não são realidades estranhas uma à outra. E perceberá outra coisa: Deus nos fala de si e de nós com a linguagem do dia a dia. Tente, e se surpreenderá.

Pe. José Bortolini


Abril - 2018

Que tal viver continuamente a espiritualidade pascal?

O Evangelho segundo São João está repleto de surpresas que somente com o tempo a ele dedicado é que descobrimos. Uma dessas surpresas se refere ao dia da ressurreição e sua repercussão na vida das pessoas e na história.

Jesus ressuscitou no domingo. É o novo sol, que inaugura um dia sem fim, realizando aquilo que se lê logo no início do Evangelho, ou seja, o inútil esforço das trevas a fim de apagar a luz. Não conseguem. E nós cantamos: “A luz resplandeceu em plena escuridão. Jamais irão as trevas vencer o seu clarão”.

O Evangelho segundo São João desenvolve abundantemente o tema da vitória da luz sobre as trevas, mas é no final que a ideia é reforçada vigorosamente. A partir do capítulo 20 narra-se a ressurreição de Jesus, o novo Sol, que vence definitivamente toda espécie de trevas.

Lendo com atenção esse capítulo, nota-se que os acontecimentos aí narrados se dão sempre de domingo: a ressurreição do Senhor, a efusão do Espírito Santo no entardecer desse mesmo dia, o episódio de Tomé, oito dias depois, ou seja, novamente em dia de domingo etc. A ideia de João é muito clara: A vitória de Jesus abre um novo dia de luz que as trevas não conseguem apagar.

Isso nos remete imediatamente à espiritualidade que o tempo pascal espera ser vivida, uma espiritualidade de vitoriosos, que não se deixam abater por nada nem por ninguém. A Liturgia detectou essa orientação e nos ensina que todo domingo, em cada celebração da Eucaristia revivemos a vitória da vida sobre a morte, ou seja, cada domingo é Páscoa. Mas o Evangelho segundo São João quer que sintamos e vivamos mais e mais,

chegando a nos sugerir que em cada amanhecer, quando acordamos para as tarefas cotidianas, digamos a nós mesmos: “Quero viver este dia com a consciência pascal. Hoje, como ontem, como amanhã, é Páscoa em minha vida, e tudo o que penso e faço precisa refletir a luz da Páscoa de Cristo”.

Portanto, seja qual for o dia do ano, eu e você estamos vivendo e revivendo a Páscoa do Senhor. Aqueles que se arrastam pela vida e fazem dela uma ladainha de lamentações desconhecem a força da espiritualidade pascal. Mesmo quando chegar o dia de nossa partida deste mundo, queiramos estar celebrando a Páscoa. E dizer, como disse uma santa, “não morro, entro na vida”.

Pe. José Bortolini


Fevereiro - 2018

Quaresma e Campanha da Fraternidade

Elementos para a espiritualidade.

De modo geral, o cristão não avança em sua caminhada sem ser alimentado por uma espiritualidade, seja ela qual for. É como o combustível num carro: faltando, ficamos parados.

Ao longo do Ano Litúrgico encontramos tempos fortes - como o Advento e a Quaresma, por exemplo - que são como o posto de combustível no qual nos abastecemos para a viagem.

Não bastasse isso, há várias décadas - mais de meio século - em nosso País o tempo forte da Quaresma (com seus grandes temas e gestos que desaguam na Páscoa) vem acompanhado por um aditivo conhecido como Campanha da Fraternidade.

O objetivo da Campanha da Fraternidade é iluminar os gestos fundamentais desse tempo litúrgico: a oração, o jejum, a esmola.

Neste ano, a Campanha da Fraternidade traz profundos desafios, sintetizados no seu tema e no lema. O tema é este: "Fraternidade e superação da violência", e o lema é tirado de Mateus 23,8: "Em Cristo somos todos irmãos". Tema e lema atualíssimos, se levarmos em conta que o País vive praticamente uma guerra civil camuflada. Mas as mortes oriundas das drogas, da corrupção, do trânsito, do preconceito etc. estão aí. Porém, não é só a violência brutal que mata. A violência se aninha e prospera na indiferença, no preconceito e em tudo o que não nos aproxima como irmãos e irmãs.

A Quaresma é caminho que desemboca na Páscoa. Mas não podemos esquecer que Jesus foi vítima do pior preconceito e da mais cruel violência, feita de palavras e de gestos. Caminhar com ele e do jeito dele neste tempo favorável requer lucidez e coragem. Hipocritamente, comovemo-nos diante de um bichinho (nosso País soma 55 milhões de cães de estimação) talvez para camuflar nossa violência verbal e de comportamento, igualmente mortal.

Nesta Quaresma, iluminados pela Campanha da Fraternidade, caminhemos para a Páscoa da vitória da vida contra todas as suas ameaças.

Pe. José Bortolini


Fevereiro/Março - 2017

Quaresma: tempo de reencontro

Dizem os peritos em Liturgia que não é bom considerar a Quaresma como tempo isolado, pois isso diminui seu sentido. É melhor considerá-la como parte de um ciclo, o Ciclo da Páscoa, que compreende Quaresma, Páscoa e Pentecostes. E isso é interessante do ponto de vista da nossa caminhada de fé. Quaresma sem Páscoa não faz sentido; Páscoa sem Pentecostes acaba incompleta e empobrecida.

O que são, portanto, esses 40 dias que dão nome a esse tempo? São início de caminhada que culmina na Páscoa e recebe a coroa no Pentecostes. São como os 40 dias de deserto na vida de Jesus: dias de profundo encontro consigo mesmo, com Deus no mistério pascal e encontro com o Espírito que anima e sustenta a caminhada da Igreja.

Quaresma é tempo de encontro consigo mesmo, com a realidade que somos. E seu início nos garante que somos pó. No deserto de sua Quaresma, Jesus venceu a tentação de pensar somente em si, nos próprios interesses (tentação de transformar as pedras em pão); superou a tentação de pôr Deus a serviço de seus caprichos (tentação de atirar-se do ponto mais alto do Templo de Jerusalém); venceu a tentação de tudo possuir, ser dono do mundo, mesmo que para tanto devesse ajoelhar-se em adoração a Satanás.

Quaresma, portanto, é tempo de reencontrar-nos conosco mesmos naquilo ao qual somos chamados e para o qual fomos feitos, à semelhança de Jesus vencedor das tentações.

Além disso, na Quaresma os católicos do Brasil refletem sobre o tema da Campanha da Fraternidade a fim de agir em sintonia com o projeto de Deus. Neste ano, em continuidade com o ano passado, nos são propostas reflexões sobre os biomas que compõem nosso País. Destruí-los é destruir-nos; preservá-los é conservar e proteger nossa casa comum. Bioma é um território – por exemplo a Amazônia, o Cerrado etc. – caracterizado por vegetação, clima, fauna, flora e população iguais. Que tal conhecer mais essas realidades que formam nossa casa comum? Não seria também isso um reencontrar-se?

Pe. José Bortolini


Novembro/Dezembro - 2016

Acolhida: espiritualidade de Natal

O Evangelho de João (1,11) afirma que Jesus “veio para o que era seu e os seus não o receberam”. Ou seja, Jesus foi rejeitado justamente por aqueles que eram parte do grupo mais próximo a ele: parentes e membros da mesma raça. Evidentemente, o Evangelho de João está se referindo à rejeição do Jesus adulto, pois nada menciona a respeito da infância. Isso é explicitado ao longo desse Evangelho.

Porém, Lucas fala da rejeição de Jesus antes mesmo de nascer. Ele associa seu nascimento a um recenseamento de todo o Império Romano, fato que força José a ir a Belém, sua terra natal, para recensear-se juntamente com sua esposa, Maria, prestes a dar à luz. Lucas narra: “Enquanto lá estavam, completaram-se os dias para o parto, e ela deu à luz seu filho primogênito, envolveu-o com faixas e reclinou-o numa manjedoura, porque não havia um lugar para eles na sala” (2,6).

Uma nota na Bíblia de Jerusalém explica que a palavra grega traduzida por “sala” dá a entender que se tratava não de um albergue, mas de casa pertencente aos parentes de José, que era natural de Belém. Eles, então, tiveram de abrigar-se no “puxadinho” do lado de fora da casa dos parentes de José, lugar reservado aos animais.

E assim se completa a rejeição da qual fala o Evangelho de João. De sorte que o oposto de rejeição, ou seja, o acolhimento, se torna a atitude fundamental para a espiritualidade do Natal.

Natal cristão, portanto, é acolhimento. Nós dizemos que onde come um comem dois; há sempre um cantinho para mais alguém que chegou de repente. Mas se o coração das pessoas é apertado ou fechado, a acolhida não acontece.

A acolhida começa dentro da gente, e a rejeição também. Aquilo que vivemos por dentro se manifesta em atos por fora. Custava para os parentes de José “aconchegar-se” um pouco mais para acolher o casal que chegou de repente? Certamente dentro da sala cada um zelava pelo próprio espaço, e assim zelando acabam perdendo a grande oportunidade de acolher o Salvador.

Façamos da celebração deste grande evento, um momento de, em família, ao redor do presépio, cantarmos com alegria jubilosa e renovarmos nossa confiança nas promessas que nosso Salvador veio trazer-nos...

Recordo o tempo de criança, quando pernoitavam visitas em casa: nós, crianças, íamos dormir na sala, cedendo a cama para as visitas. E sem reclamar; pelo contrário, fazendo festa e também bagunça. Era acolhida festiva. Era espiritualidade de Natal.

Pe. José Bortolini