Fevereiro - 2018

Quaresma e Campanha da Fraternidade

Elementos para a espiritualidade.

De modo geral, o cristão não avança em sua caminhada sem ser alimentado por uma espiritualidade, seja ela qual for. É como o combustível num carro: faltando, ficamos parados.

Ao longo do Ano Litúrgico encontramos tempos fortes - como o Advento e a Quaresma, por exemplo - que são como o posto de combustível no qual nos abastecemos para a viagem.

Não bastasse isso, há várias décadas - mais de meio século - em nosso País o tempo forte da Quaresma (com seus grandes temas e gestos que desaguam na Páscoa) vem acompanhado por um aditivo conhecido como Campanha da Fraternidade.

O objetivo da Campanha da Fraternidade é iluminar os gestos fundamentais desse tempo litúrgico: a oração, o jejum, a esmola.

Neste ano, a Campanha da Fraternidade traz profundos desafios, sintetizados no seu tema e no lema. O tema é este: "Fraternidade e superação da violência", e o lema é tirado de Mateus 23,8: "Em Cristo somos todos irmãos". Tema e lema atualíssimos, se levarmos em conta que o País vive praticamente uma guerra civil camuflada. Mas as mortes oriundas das drogas, da corrupção, do trânsito, do preconceito etc. estão aí. Porém, não é só a violência brutal que mata. A violência se aninha e prospera na indiferença, no preconceito e em tudo o que não nos aproxima como irmãos e irmãs.

A Quaresma é caminho que desemboca na Páscoa. Mas não podemos esquecer que Jesus foi vítima do pior preconceito e da mais cruel violência, feita de palavras e de gestos. Caminhar com ele e do jeito dele neste tempo favorável requer lucidez e coragem. Hipocritamente, comovemo-nos diante de um bichinho (nosso País soma 55 milhões de cães de estimação) talvez para camuflar nossa violência verbal e de comportamento, igualmente mortal.

Nesta Quaresma, iluminados pela Campanha da Fraternidade, caminhemos para a Páscoa da vitória da vida contra todas as suas ameaças.

Pe. José Bortolini


Fevereiro/Março - 2017

Quaresma: tempo de reencontro

Dizem os peritos em Liturgia que não é bom considerar a Quaresma como tempo isolado, pois isso diminui seu sentido. É melhor considerá-la como parte de um ciclo, o Ciclo da Páscoa, que compreende Quaresma, Páscoa e Pentecostes. E isso é interessante do ponto de vista da nossa caminhada de fé. Quaresma sem Páscoa não faz sentido; Páscoa sem Pentecostes acaba incompleta e empobrecida.

O que são, portanto, esses 40 dias que dão nome a esse tempo? São início de caminhada que culmina na Páscoa e recebe a coroa no Pentecostes. São como os 40 dias de deserto na vida de Jesus: dias de profundo encontro consigo mesmo, com Deus no mistério pascal e encontro com o Espírito que anima e sustenta a caminhada da Igreja.

Quaresma é tempo de encontro consigo mesmo, com a realidade que somos. E seu início nos garante que somos pó. No deserto de sua Quaresma, Jesus venceu a tentação de pensar somente em si, nos próprios interesses (tentação de transformar as pedras em pão); superou a tentação de pôr Deus a serviço de seus caprichos (tentação de atirar-se do ponto mais alto do Templo de Jerusalém); venceu a tentação de tudo possuir, ser dono do mundo, mesmo que para tanto devesse ajoelhar-se em adoração a Satanás.

Quaresma, portanto, é tempo de reencontrar-nos conosco mesmos naquilo ao qual somos chamados e para o qual fomos feitos, à semelhança de Jesus vencedor das tentações.

Além disso, na Quaresma os católicos do Brasil refletem sobre o tema da Campanha da Fraternidade a fim de agir em sintonia com o projeto de Deus. Neste ano, em continuidade com o ano passado, nos são propostas reflexões sobre os biomas que compõem nosso País. Destruí-los é destruir-nos; preservá-los é conservar e proteger nossa casa comum. Bioma é um território – por exemplo a Amazônia, o Cerrado etc. – caracterizado por vegetação, clima, fauna, flora e população iguais. Que tal conhecer mais essas realidades que formam nossa casa comum? Não seria também isso um reencontrar-se?

Pe. José Bortolini


Novembro/Dezembro - 2016

Acolhida: espiritualidade de Natal

O Evangelho de João (1,11) afirma que Jesus “veio para o que era seu e os seus não o receberam”. Ou seja, Jesus foi rejeitado justamente por aqueles que eram parte do grupo mais próximo a ele: parentes e membros da mesma raça. Evidentemente, o Evangelho de João está se referindo à rejeição do Jesus adulto, pois nada menciona a respeito da infância. Isso é explicitado ao longo desse Evangelho.

Porém, Lucas fala da rejeição de Jesus antes mesmo de nascer. Ele associa seu nascimento a um recenseamento de todo o Império Romano, fato que força José a ir a Belém, sua terra natal, para recensear-se juntamente com sua esposa, Maria, prestes a dar à luz. Lucas narra: “Enquanto lá estavam, completaram-se os dias para o parto, e ela deu à luz seu filho primogênito, envolveu-o com faixas e reclinou-o numa manjedoura, porque não havia um lugar para eles na sala” (2,6).

Uma nota na Bíblia de Jerusalém explica que a palavra grega traduzida por “sala” dá a entender que se tratava não de um albergue, mas de casa pertencente aos parentes de José, que era natural de Belém. Eles, então, tiveram de abrigar-se no “puxadinho” do lado de fora da casa dos parentes de José, lugar reservado aos animais.

E assim se completa a rejeição da qual fala o Evangelho de João. De sorte que o oposto de rejeição, ou seja, o acolhimento, se torna a atitude fundamental para a espiritualidade do Natal.

Natal cristão, portanto, é acolhimento. Nós dizemos que onde come um comem dois; há sempre um cantinho para mais alguém que chegou de repente. Mas se o coração das pessoas é apertado ou fechado, a acolhida não acontece.

A acolhida começa dentro da gente, e a rejeição também. Aquilo que vivemos por dentro se manifesta em atos por fora. Custava para os parentes de José “aconchegar-se” um pouco mais para acolher o casal que chegou de repente? Certamente dentro da sala cada um zelava pelo próprio espaço, e assim zelando acabam perdendo a grande oportunidade de acolher o Salvador.

Façamos da celebração deste grande evento, um momento de, em família, ao redor do presépio, cantarmos com alegria jubilosa e renovarmos nossa confiança nas promessas que nosso Salvador veio trazer-nos...

Recordo o tempo de criança, quando pernoitavam visitas em casa: nós, crianças, íamos dormir na sala, cedendo a cama para as visitas. E sem reclamar; pelo contrário, fazendo festa e também bagunça. Era acolhida festiva. Era espiritualidade de Natal.

Pe. José Bortolini